Alimentando o Ego

Não se observa no cotidiano um jornal auto-intitulado parcial , como se observa nas folhas do “Ego”, jornal que tem Fábio Brüggemann, co-autor de “Para que serve o Estado?”, como um dos editores. Esta suposta amoralidade e falta de cuidado com ponderações, que não apenas é rara em um jornal, mas mesmo no caráter da maioria das pessoas, contudo, é algo que, além de demonstrar franqueza, sinaliza identidade, e, por que não, coerência política – que em seu caso se faz na incoerência da polemização.

No decorrer da entrevista concedida à RECRIE , Fábio Brüggemann demonstrou algumas de suas opiniões sobre a literatura, que vão desde a problemática da estética e da representação até o fenômeno da literatura comercial de massa ou a dificuldade de ser um editor em um país que possui tão poucos leitores. Seu livro “A lebre dói como faca de dor de ouvido”, como o próprio título já sugere, é um livro incomum. No entanto, isto não indica que o autor acredite ter feito algo de novo a ser contado. Ao contrário, é testemunha de sua opinião de que, por mais que se tente inventar, as histórias contadas pelos homens são sempre as mesmas. Assim, residiria principalmente na forma e na transgressão os principais méritos do artista. Segundo ele, esta característica renovadora do texto é algo de que a atual literatura brasileira carece (principalmente no que concerne à escrita de massa), mesmo que se saiba da existência de muitos bons escritores.

É também bastante notável a atualidade com que Brüggemann fala sobre a imprensa. Isto se deve muito à sua atividade como jornalista, atualmente no “Diário Catarinense” e também em seu próprio jornal, que, por mais que seja de uma tiragem modesta, traz bastante impacto para quem lê, que seria o já citado “Ego: um jornal parcial”. Sua opinião compactua com a atual crise enfrentada pelo jornalismo cujos editores, em sua maioria, insistem no rótulo da imparcialidade jornalística, o que para Brüggemann é um completo absurdo. Sendo assim, ainda haveria espaço para jornais ideologicamente assumidos, se bem que ele não refuta que a liberdade de imprensa não pode ser defensora de idéias fora do razoável ou que possibilitassem a implantação de uma ideologia única por parte de um veículo que domine completamente a comunicação, como acontece hoje com a televisão brasileira, que, por sinal, é uma concessão pública.

Entretanto, sua crítica também se mostra quando o assunto é a cultura em Santa Catarina. Neste sentido, Brüggemann traz severos questionamentos ao atual modelo de política cultural que vem sendo proposto pelo governo do Estado assim como aquele que é proposto pelos artistas que estão na discussão sobre o assunto. Não se progride no tema quando o governo tenta possibilitar a cultura como um favor seu, ou seja, como política de governo e não de Estado e através de leis; assim como de nada adianta que os artistas somente estejam preocupados em receber recursos para seus próprios projetos sem pensar em uma política cultural a longo prazo, o que é um puro egoísmo . Ego, entretanto, como se viu, tomado em outro sentido, é algo muito presente em Brüggemann, e nem por isso ele deixa de pensar literatura independente e atual, escrever a partir de um jornalismo responsável, parcial, e discutir os rumos da atividade cultural como uma tarefa, em certo sentido, artística.

Alexandre Nodari
Leonardo D'Avila de Oliveira
Leonardo T. N. de Almeida
Rodrigo Lopes de Barros Oliveira