Abertura:
15 anos de um muro esquecido
Alexandre Nodari e Rodrigo Lopes de Barros Oliveira
In: RECRIE: arte e ciência - Ano 1, n. 2. Florianópolis: Fundação Boiteux, p. 11-14, mar. 2005
Uma década e meia se passou das ardentes noites em que picaretas e tratores botaram abaixo o pichado Muro de Berlim, decretando o apoteótico e trágico encerramento da guerra fria. O confronto entre aqueles dois mundos “rivais” e “antagônicos”, porém, não pereceu graças à mútua conciliação – fato talvez impossível –, tampouco a mísseis e bombas aclamados mais que a sua real existência, representando nada além de intimidações – uma vez que guerras diretas eram indesejadas por ambos os lados. A síntese entre “bem” e “mal” consistiu-se, em conceito extremamente marxista, na superioridade “econômica” e “cultural” pertencente à terra encantada do alegre Mickey Mouse sobre a realidade animada, orgânica e fática, das pretensas contemplações libertárias descritas em pilhas bolorentas de escritos socialistas.
O golpe foi duro, quiçá mais violento que os expurgos stalinistas, doloroso quais todas as quedas e demolições – onde sempre nos toma a nostalgia e um certo medo do passado que se esvai. Mas, às vezes, nem pavores, tristezas e derrotas são capazes de nos fazer refletir sobre os equívocos e as maldades. Ao contrário, os sentimentos que nos embrulham o estômago não ocasionam apenas um complexo anoréxico, vão adiante, atingem os olhos que se perdem numa realidade falsa e erroneamente dignificante, pois assim os sacrifícios não parecerão inúteis. A esquerda ficou cega dos olhos da nuca, não fita as pegadas deixadas às costas, incontempla a própria história e passado, apenas cambaleia ferida entre os escombros que soterra corpos sem vida; encontra-se faminta e sedenta, tentando sobreviver em porões, em clandestinos partidos que só partem os restos e as migalhas. Há um conluio armado que deseja ressuscitar as trevas da morte cerebral, melhor, que pretende forjar um cérebro num ser acéfalo; esses movimentos, que mpedem, ou, ao menos tentam impedir a morte completa dos pensamentos que auxiliaram nos tijolos do Muro, esquecem-se de refletir, pensar e ponderar, ignorando feito besta a trajetória sangrenta que indiscutivelmente lhes pertence.
Quinze anos de um muro esquecido. Não houve, e nada nos leva a pensar que haverá, por parte da esquerda, uma reflexão contundente e profunda sobre as quebras (sem precedentes) de paradigmas ocasionadas pela derrubada do Muro; e fantasiar as derrotas é o melhor caminho até a morte.
A morte é a escuridão eterna e inconsciente, nada mais.
O marxismo está morto?
Evidente que sim.
No entanto, igual a tudo que morre, renasce, ressurge, ressuscita, não sobre a mesma forma, mas encarnando algo inusitado e surpreendente, que difere e contrasta com as micropartículas que o originaram. Quinze anos é tempo suficiente para decomposição de um cadáver, e a Recrie, ciente de que despojos assim já não fedem mais, espera que este debate possa contribuir à criação do novo, um ente que se faça da carcaça abandonada e apodrecida do velho, resgatando em sua composição as melhores características de uma doutrina que, durante quase um século, representou o mais alto grau dos sonhos de liberdade e emancipação da raça humana.
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Atualmente, ao observarmos os grupos que se banham em vermelho berrando contra as medidas governamentais que degradarão a universidade pública, detectamos um aspecto simultaneamente melancólico e burlesco; não se trata dos braços erguidos feito nazistas, nem dos olhos esbugalhados, tampouco das bocas espumantes, nada disso. O fato curioso consiste em que a pequena multidão de duas dúzias é formada pelas mesmas pessoas que há alguns anos, aos chavões, exigiam “fora” ao presidente; são os mesmos que no passado invadiram a capital com intuito de barrar uma reforma previdenciária que esmagou a todos como um trator; foram eles também a combater de maneira impotente uma ditadura que veio quando quis e se foi assim que teve vontade, e protestaram, outrossim, contra a Guerra do Iraque – que não terminada pelo pai, aguardou pacientemente crescer o filho –, ou ainda escreveram em suas camisetas um grande “não” ao ato de invadir o Afeganistão, Guerra de Kosovo, Plano Colômbia, ALCA, Golpe Venezuelano, ingênuos vivas à Revolução Argentina... O passado passa, de forma rápida, transforma-se em desmemória, em esquecimento intencionalmente esquecido. Talvez seja esse o motivo de a esquerda mostrar-se em tamanha impotência frente à realidade, uma vez que luta por algo que indubitavelmente irá esquecer, repetindo as mesmas derrotas e fracassos, transbordando uma conhecida inocuidade estéril, incapaz de transformar em definitivo.
Enquanto os explorados de Marx, não se conscientizarem de que a transformação presente, vislumbrando um futuro livre, apenas acontecerá por meio de uma análise despudorada do próprio passado, relembrando, juntamente com suas lutas e sofrimentos, as maldades e os equívocos, os gritos e as convulsões contra qualquer medida degradante continuarão a acarretar nas pessoas, como agora, nada mais que outra coisa senão um triste sentimento de pena e misericórdia. |