"Onde se queimam livros, acaba-se queimando pessoas."
(Heinrich Heine)

A queima em praça pública dos livros da “Livraria do Salim”, promovida pelo recém instalado regime militar de 64, foi um episódio único e irrepetido. Mesmo singular, foi paradigmática: prenunciou o histórico de tortura, repressão e assassinatos que marcariam a longa ditadura brasileira. Pois no ato de promoverem uma fogueira pública de livros – prática típica de momentos históricos dos mais nebulosos, como o nazismo e a Inquisição – os adeptos e simpatizantes dos regime mostravam-se capazes e predispostos a fazerem o mesmo com vidas humanas. A arte se dispõe a explorar as múltiplas possibilidades da vida e a literatura de Salim Miguel, em particular, se baseia e sempre se baseou em algo vivido por ele ou por outrem: queimar livros é queimar vidas, é (tentar) impedir a vida de se aflorar nas suas infinitas manifestações.

Ao narrar o episódio, Salim rompe com alguns mitos, a começar pelo mito da brandura da repressão em Santa Catarina. O caráter militar do golpe também é desmentido: o regime foi comandado por militares, mas sustentado por civis desde o golpe – ao qual o entrevistado hesita em atribuir o adjetivo “militar”.

A entrevista a seguir também vem com o intuito de quebrar alguns mitos. Em especial, o mito de que não existem grandes escritores em Santa Catarina. Na longa conversa que travou conosco, Salim Miguel comprovou ser, além de um ótimo contador de histórias (na acepção mais positiva da expressão) e um ser humano afinado e preocupado com seu tempo, um escritor e leitor (escritor-leitor) dos mais refinados. A recente leva de prêmios que recebeu nos últimos anos confirma isto e mitiga um pouco a falta de reconhecimento dos escritores situados fora do “eixo editorial” sem, no entanto, romper com um problema que assola a maioria quase absoluta de sua classe: a impossibilidade de sobreviver do ofício pelo parco número de leitores em nosso país.

Post Scriptum: Não só pela queima do acervo de sua ex-livraria é que o regime tentou intimidar Salim e, com ele, a arte: o escritor líbano-biguaçuense foi preso logo depois que o regime eclodiu. Mas a arte dá o troco, afirmando sua superioridade e mostrando que a vida é incontrolável. O autor conseguiu extrair a multiplicidade da vida mesmo no momento em que ela lhe era mais negada – a reclusão. E mais: esperou trinta anos para publicar esta sua versão dos “Cadernos do Cárcere” se negando a “publicar um livro com ódio, com ressentimento”. O mesmo se dá quanto à fogueira dos livros: Salim se nega a expor a identidade dos responsáveis - os quais percorrem os círculos do poder até hoje - pois estes não merecem nem ter o nome lembrado.


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