Um vácuo acadêmico há muito nos trespassa feito bala; parcas são as discussões de idéias, o envolvimento e o compromisso intelectual. Presos a esta perspectiva sombria, tal qual os seres da caverna platônica, somente, quando muito, reproduzimos as sombras do anteparo. Pois, vê-se em nosso quotidiano apenas uma frequência: entrar, sentar, ouvir, sair; relegadas a plano secundário nossas idéias, tão somente, se apresentam em trabalhos e, esparsamente, à sala de aula. Nos resta, então, impunhar nossas penas, pois "que importa os raios trovejem/ nas florestas do existir/ Parti, pois! Homens do livro!/ Podeis ousadas partir!/ Pois sereis..., vindo com glória,/ou morrendo na vitória.../Homens do livro da História/Dessa Bíblia do porvir." (Castro alves em "Aos estudantes voluntários")

Aos nossos represados pensamentos se faz mister, portanto, um veículo para libertá-los - já advertia Fernando Pessoa: "Quem nada foi nem é não dirá nada"-, por isso está à mão esta revista, tal como uma fênix, nascida das cinzas, criando o novo sob a nossa própria

responsabilidade. Preocupada em fazer muito vento às nossas produções, disseminando-as aos mais longínquos campos; em nos libertar da matéria escrava. Nossas idéias, assim, virarão movimento, e poderemos ir "sorrindo a céus que se vão desvendando,/a mundo que se vão multiplicando,/ a portas de ouro que se vão abrindo." (Cruz e Souza em "Supremo verbo")

Por tudo foi desenvolvida a Recrie, atingida por confecções de textos, entrevistas, debates...visando a entregar ao acadêmico a responsabilidade de criar um novo cenário. Os textos chegaram de acordo com o edital publicado - ao final desta, há o da próxima edição - e preocupou-se, tão somente, em seguir um princípio, qual seja, o de deslocar massas quentes e frias, amalgamando-as, também, para que se crie grandes turbulências, não olvidando que tudo depende e dependerá de você, autor-leitor.

Esta primeira edição sai como um tiro no escuro, ao procurar em diversas áreas (ensaios, contos, poesia, crônicas, artigos...) não apenas leitores solidários e futuros colaboradores, mas uma imagem ainda disforme e inacabada de seu próprio rosto. Lançamos a primeira pedra visando à construção de uma identidade que só se definirá com o tempo, porém seguimos tranqüilizados por Mário Quintana, que nos aconselha em sua aula inaugural: "Dança, Poeta,/ E sob o aéreo, o implacável, o irresistível/ ritmo de teus pés,/ Deixa rugir o Caos atônito..."  Que não nos deixemos ser levados, portanto, pelas formas frias que tanto buscam nos enrijecer. Busquemos nós as vias, nem que sejam estas marginais ou clandestinas, por onde possam correr e dançar os nossos anseios por um espaço de livre manifestação, e onde se ouçam as vozes de estudantes começando a se libertar.


[VOLTAR]